Alberto Caiero, o MESTRE de todos eles
Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil( morreu tuberculoso),não parecia tão frágil como era. Era louro sem cor, olhos azuis.Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma - só instrução primária; morreu-lhe cedo o pai e a mãe , e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos.Vivia com uma tia velha, tia-avó.

Alberto Caiero: por Álvaro de Campos
Vejo ainda, com claridade de alma, que as lagrimas da lembrança não empanam, porque a visão não é externa...Vejo-o diante de mim, ve-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro, os olhos azuis de criança que não tem medo; depois os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições. O cabelo, quase abundante, era louro, mas, se faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura dizer senão o que está dizendo - nem alta, nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar não sabia deixar de fitar.Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era pela sua brancura, que parecia maior que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito; a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava, - como se falar fosse, para esse homem, menos que existir, - era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam - flores, campos largos, águas com sol - um sorriso de existir e não de nos falar.
Alberto Caeiro: Segundo Ricardo Reis
A vida de Caeiro não pode narrar-se pois que não há nela de que narrar.Seus poemas são o que houve nele de vida.Em tudo mais não houve incidentes, nem há história(...)
A obra de Caeiro representa a reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos, que viveram nele e por isso não o pensaram, o puderam fazer. A obra , porém, e o seu paganismo, não foram nem pensados nem até sentidos: foram vindos com o que quer que seja que é em nós mais profundo que o sentimento ou a razão. Dizer mais fora explicar, o que nada serve: afirmar menos fora mentir.Toda obra fala por si, com a voz que lhe é própria, e naquela linguagem em que se forma em sua mente: quem não entende não pode entender, e não há pois o que explicar-lhe. É como fazer compreender a alguém um idioma que ele não fala.
Escrito por LF às 11:52
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