Sete Poemitos Solitários

V- Insônia

À porta, aberta ao sol,

Na longa noite torta,

De pé, olhando infinitos,

Plantado em sonhos,

Olha para mim

Quem não dorme!

 

VII- sem nome

Ser o que era

Nunca soube ser

Era na infância

Que ser feliz era

Ser só o que vinha

Ser, em mim, o universo.

01/07/2003

DomF

Poème 17

En pensant, en prenant des ombres au filet dans la solitude profonde.
Toi aussi tu es loin, bien plus loin que personne.
Penseur, lâcheur d'oiseaux, images dissipées
et lampes enterrées.
Clocher de brumes, comme tu es loin, tout là-haut!
Étouffant le gémir,
taciturne meunier de la farine obscure de l'espoir,
la nuit s'en vient à toi, rampant, loin de la ville.


Ta présence a changé et m'est chose étrangère.
Je pense, longuement je parcours cette vie avant toi.
Ma vie avant personne, ma vie, mon âpre vie.
Le cri face à la mer, le cri au coeur des pierres,
en courant libre et fou, dans la buée de la mer.
Cri et triste furie, solitude marine.
Emballé, violent, élancé vers le ciel.


Toi, femme, qu'étais-tu alors? Quelle lame, quelle branche
de cet immense éventail ? Aussi lointaine qu'à présent.
Incendie dans le bois ! Croix bleues de l'incendie.
Brûle, brûle et flamboie, pétille en arbres de lumière.
Il s'écroule et crépite. Incendie, incendie.


Blessée par des copeaux de feu mon âme danse.
Qui appelle? Quel silence peuplé d'échos?
Heure de nostalgie, heure de l'allégresse, heure de solitude,
heure mienne entre toutes!
Trompe qui passe en chantant dans le vent.
Tant de passion des pleurs qui se noue à mon corps.


Toutes racines secouées,
toutes les vagues à l'assaut!
Et mon âme roulait, gaie, triste, interminable.


Pensées et lampes enterrées dans la profonde solitude.
Qui es-tu toi, qui es-tu?

Pablo Neruda

Rio Sem Fim

Cantos de Outras

Fio Vendo

Quantas Almas Tenho

O necessário é OUTRAR-SE.

Fernando Pessoa é o poeta dos heterónimos; o poeta que se desmultiplica ou despersonaliza na figura de inúmeros heterónimos e semi-heterónimos, dando forma por esta via à amplitude e à complexidade dos seus pensamentos, conhecimentos e percepções da vida e do mundo; ao dar vida às múltiplas vozes que comporta dentro de si, o poeta pode percepcionar e expressar as diferentes formas do universo, das coisas e do homem.

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Duas Cartas a Casaes Monteiro

Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meus rigorosamente construídos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos por dentro de suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos, e, criança isolada e não desejando senão assim estar, já me acompanhavam alguns figuras de meus sonhos - um capitão Thibeaut, um Chevalier de Pás- e outros que já me esqueceram, e cujo esquecimento,como a imperfeita lembrança daqueles, é umas das grandes saudades da minha vida.

Isto parece simplesmente aquela imaginação infantil que se entretém com a atribuição de vida a bonecos ou bonecas.Era porem mais: eu não precisava de bonecas para conceber intensamente essas figuras.Claras e visíveis no meu sonho constante, realidades exatamente humanas para mim, qualquer boneco, por irreal, as estragaria. Eram gente.

Além disto, esta tendência não passou com a infância, desenvolveu-se na adolescência, radicou-se como crescimento dela, tornou-se finalmente a forma natural de meu espírito.Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra sou o executor.Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha.

     Trata-se, contudo, simplesmente do temperamento dramático elevado ao máximo; escrevendo em vez de drama em atos e ação, dramas de almas.Tão simples é, na sua substância, este fenômeno aparentemente tão confuso.

      Não nego, porém – favoreço, até -, a explicação psiquiátrica, mas deve  compreender-se que toda atividade  superior do espírito, porque é anormal, é igualmente suscetível de interpretação psiquiátrica. Não me custa admitir que eu seja louco, mas exijo que se compreenda que não sou louco diferentemente de Shakespeare, qualquer que seja o valor relativo dos produtos do lado são da nossa loucura.

      Médium, assim, de mim mesmo todavia subsisto.Sou  porém  menos real que os outros, menos coeso(?), menos pessoa, eminentemente influenciável por eles todos. Sou também discípulo de Caeiro, e ainda me lembro do dia – 13 de Março de l914 – quando, tendo “ouvido pela primeira vez” ( isto é, tendo acabado de escrever de um só hausto de espírito) grande número dos primeiros poemas do Guardador de Rebanhos, e, imediatamente escrevi, a fio, os seis poemas-intersecções que compõem a Chuva Obliqua( Orfeu 2), manifesto e lógico resultado da influência do Caeiro sobre o temperamento de Fernando Pessoa.

Alberto Caiero, o MESTRE de todos eles 

 Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil( morreu tuberculoso),não parecia tão frágil como era. Era louro sem cor, olhos azuis.Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma - só instrução primária; morreu-lhe cedo o pai e a mãe , e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos.Vivia com uma tia velha, tia-avó.

 

Alberto Caiero: por Álvaro de Campos

Vejo ainda, com claridade de alma, que as lagrimas da lembrança não empanam, porque a visão não é externa...Vejo-o diante de mim, ve-lo-ei talvez eternamente como primeiro o vi. Primeiro, os olhos azuis de criança que não tem medo; depois os malares já um pouco salientes, a cor um pouco pálida, e o estranho ar grego, que vinha de dentro e era uma calma, e não de fora, porque não era expressão nem feições. O cabelo, quase abundante, era louro, mas,  se faltava luz, acastanhava-se. A estatura era média, tendendo para mais alta, mas curvada, sem ombros altos. O gesto era branco, o sorriso era como era, a voz era igual, lançada num tom de quem não procura dizer senão o que está dizendo - nem alta, nem baixa, clara, livre de intenções, de hesitações, de timidezas. O olhar não sabia deixar de fitar.Se a nossa observação estranhava qualquer coisa, encontrava-a: a testa sem ser alta, era poderosamente branca. Repito: era pela sua brancura, que parecia maior  que a da cara pálida, que tinha majestade. As mãos um pouco delgadas, mas não muito;  a palma era larga. A expressão da boca, a última coisa em que se reparava, - como se falar fosse, para esse homem, menos que existir, -  era a de um sorriso como o que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam -  flores, campos largos, águas com sol - um sorriso de existir e não de nos falar.

 Alberto Caeiro: Segundo  Ricardo Reis

      A vida de Caeiro não pode narrar-se pois que não há nela de que narrar.Seus poemas são o que houve nele de vida.Em tudo  mais não houve incidentes, nem há história(...)

 A obra de Caeiro representa a reconstrução integral do paganismo, na sua essência absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos, que viveram nele e por isso não o pensaram, o puderam fazer. A obra , porém,  e o seu paganismo, não foram nem pensados nem até sentidos: foram vindos com o que quer que seja que é em nós mais profundo que o sentimento ou a razão. Dizer mais fora explicar, o que nada serve: afirmar menos fora mentir.Toda obra fala por si, com a voz que lhe é própria, e naquela linguagem  em que se forma em sua mente: quem não entende não pode entender, e não há pois o que explicar-lhe. É como fazer compreender a alguém um idioma que ele não fala.

 

O Guardador de Rebanhos

 

O GUARDADOR DE REBANHOS (IX)

Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Um Bordo

Um Bardo inventa cançoes.Um bardo nunca lembra de nada.um Bardo recorda sonhos...Só recorda os sonhos da alma! Bardos não têm pátria...Bardos so podem viver Pedurados em estrelas!

Para Ser Grande

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, 14-2-1933

       

Não:não digas nada!

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

6-2-1931

Fernando Pessoa

Tenho Tanto Sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa

Rio sem Fim

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -

Fernando Pessoa

11-9-1933




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