O necessário é OUTRAR-SE.
Fernando Pessoa é o poeta dos heterónimos; o poeta que se desmultiplica ou despersonaliza na figura de inúmeros heterónimos e semi-heterónimos, dando forma por esta via à amplitude e à complexidade dos seus pensamentos, conhecimentos e percepções da vida e do mundo; ao dar vida às múltiplas vozes que comporta dentro de si, o poeta pode percepcionar e expressar as diferentes formas do universo, das coisas e do homem.
Quer saber mais....
Duas Cartas a Casaes Monteiro
Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meus rigorosamente construídos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos por dentro de suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos, e, criança isolada e não desejando senão assim estar, já me acompanhavam alguns figuras de meus sonhos - um capitão Thibeaut, um Chevalier de Pás- e outros que já me esqueceram, e cujo esquecimento,como a imperfeita lembrança daqueles, é umas das grandes saudades da minha vida.
Isto parece simplesmente aquela imaginação infantil que se entretém com a atribuição de vida a bonecos ou bonecas.Era porem mais: eu não precisava de bonecas para conceber intensamente essas figuras.Claras e visíveis no meu sonho constante, realidades exatamente humanas para mim, qualquer boneco, por irreal, as estragaria. Eram gente.
Além disto, esta tendência não passou com a infância, desenvolveu-se na adolescência, radicou-se como crescimento dela, tornou-se finalmente a forma natural de meu espírito.Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra sou o executor.Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha.
Trata-se, contudo, simplesmente do temperamento dramático elevado ao máximo; escrevendo em vez de drama em atos e ação, dramas de almas.Tão simples é, na sua substância, este fenômeno aparentemente tão confuso.
Não nego, porém – favoreço, até -, a explicação psiquiátrica, mas deve compreender-se que toda atividade superior do espírito, porque é anormal, é igualmente suscetível de interpretação psiquiátrica. Não me custa admitir que eu seja louco, mas exijo que se compreenda que não sou louco diferentemente de Shakespeare, qualquer que seja o valor relativo dos produtos do lado são da nossa loucura.
Médium, assim, de mim mesmo todavia subsisto.Sou porém menos real que os outros, menos coeso(?), menos pessoa, eminentemente influenciável por eles todos. Sou também discípulo de Caeiro, e ainda me lembro do dia – 13 de Março de l914 – quando, tendo “ouvido pela primeira vez” ( isto é, tendo acabado de escrever de um só hausto de espírito) grande número dos primeiros poemas do Guardador de Rebanhos, e, imediatamente escrevi, a fio, os seis poemas-intersecções que compõem a Chuva Obliqua( Orfeu 2), manifesto e lógico resultado da influência do Caeiro sobre o temperamento de Fernando Pessoa.